Encontrar um planeta ao redor de uma estrela já exige precisão. Quando duas estrelas orbitam uma à outra, o cenário se torna muito mais complicado. Um novo estudo com dados do TESS mostra que os próprios eclipses do par podem denunciar mundos que seriam difíceis de localizar pelo método tradicional.
A equipe analisou 1.590 sistemas binários observados por pelo menos dois anos e selecionou 27 candidatos a planeta. Eles ainda não são planetas confirmados; cada sistema precisa passar por novas medições.
Essa diferença entre candidato e confirmação é essencial. Um catálogo inicial serve para concentrar tempo de telescópios nos sinais mais promissores; só depois de eliminar atividade estelar, efeitos instrumentais e outras configurações de órbita o objeto pode entrar na lista de planetas validados.
O método mais conhecido: o trânsito
Grande parte dos exoplanetas do TESS é encontrada quando um mundo passa diante de sua estrela e provoca uma pequena queda regular de brilho. Isso só funciona quando a órbita está alinhada com a nossa linha de visão.
Em um sistema binário, as próprias estrelas eclipsam uma à outra. Um planeta pode ter uma órbita inclinada e nunca cruzar diretamente o disco estelar visto da Terra. Nesse caso, seu trânsito desaparece, mas a gravidade do planeta continua afetando o sistema.

O relógio gravitacional das duas estrelas
Se apenas as duas estrelas estivessem presentes, seus eclipses seguiriam uma previsão muito precisa. Uma terceira massa puxa o par e pode adiantar ou atrasar ligeiramente cada eclipse.
Há outras causas para mudanças no tempo, incluindo rotação, forças de maré, relatividade e precessão da órbita. Por isso os pesquisadores modelaram todos esses efeitos antes de apontar um possível planeta.
Os anos de observações do TESS foram decisivos. Uma pequena diferença isolada não diz muito; uma sequência longa permite identificar padrões repetidos.
Que tipos de mundo podem estar ali
As massas ainda são incertas. As estimativas preliminares vão de aproximadamente 12 massas terrestres a cerca de 3.200 massas terrestres, valor próximo de dez vezes a massa de Júpiter. No extremo superior, alguns objetos podem acabar classificados como anãs marrons em vez de planetas.
A confirmação exigirá observatórios em solo medindo a velocidade das estrelas. Se um planeta estiver presente, seu puxão gravitacional também deverá produzir uma oscilação compatível nessas medições.
Por que sistemas binários importam
Eles funcionam como laboratórios de formação planetária. Se os mundos orbitarem no mesmo plano das estrelas, isso favorece cenários mais organizados de formação a partir de um disco. Órbitas muito inclinadas sugerem uma história turbulenta, com interações e migrações.
O método de tempo dos eclipses não depende de o planeta passar na frente da estrela. Isso abre acesso a uma população que os levantamentos de trânsito podem deixar escapar.
TESS continua produzindo ciência
Quando o estudo foi divulgado, a missão acumulava 885 exoplanetas confirmados e mais de 7.900 candidatos. O mesmo conjunto de imagens usado para procurar trânsitos também registra asteroides, estrelas variáveis, explosões e núcleos galácticos ativos.
A descoberta não é uma lista de 27 novos mundos confirmados. É algo talvez mais valioso neste estágio: uma lista de alvos e um método capaz de ampliar o mapa dos sistemas planetários com dois sóis.